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Aquaponia: inovação e sustentabilidade

A palavra “aquaponia” é derivada da combinação entre “aquicultura” (produção de organismos aquáticos) e “hidroponia” (produção de plantas sem solo) e refere-se à integração entre a criação de organismos aquáticos, principalmente peixes, e o cultivo de vegetais hidropônicos, geralmente hortaliças. (EMBRAPA, 2015)

Aproximadamente 70% de toda a água disponível no mundo é utilizada para irrigação, sendo que no Brasil esse índice chega a 72% (EBC, 2016), buscando mitigar os impactos ambientais, “a aquaponia se mostra como um sistema de recirculação de água, onde a água de cultivo passa por diferentes etapas de filtração, até que na etapa final os nutrientes remanescentes são absorvidos pelas plantas que são cultivadas no sistema, fazendo com que a água seja tratada antes de voltar ao tanque dos peixes, o que pode minimizar ou até mesmo eliminar a necessidade de trocas de água, que são comuns em outras modalidades de produção aquícola.”

Outro fato relevante sobre os sistemas aquapônicos é que, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), são considerados uma atividade com enorme potencial para contribuir com o combate à fome em todo o mundo.

Sistema Aquapônico

Determinados componentes devem ser estudados e analisados para uma implementação eficiente, tanto aspectos biológicos quanto o tipo de sistema são relevantes para isto.

  • Aspectos Biológicos

O fornecimento de ração aos peixes é a entrada de insumo mais importante num sistema aquapônico, pois as excretas produzidas pelos peixes serão, posteriormente, convertidas nos nutrientes absorvidos pelas plantas.

Na aquaponia há um fluxo contínuo de nutrientes entre os diferentes organismos vivos (figura 1) que estão relacionados por meio de ciclos biológicos naturais, notadamente a nitrificação promovida por bactérias. Bactérias nitrificantes dos gêneros nitrosomonas e nitrobacter são responsáveis pela conversão da amônia (NH3) em nitrito (NO2 – ) e este em nitrato (NO3 – ), transformando substâncias tóxicas produzidas pelos peixes em nutrientes assimiláveis pelas plantas. Ao consumir esses nutrientes as plantas, juntamente com as bactérias, desempenham papel importante na filtragem biológica da água, garantindo sua condição adequada para o desenvolvimento normal dos peixes (EMBRAPA, 2015).

Outro fator de grande importância é o pH, um dos pontos mais críticos e que requer muita atenção dentro de um sistema de aquaponia. Pelo fato da aquaponia envolver num mesmo corpo d’água três organismos muito distintos (peixes, plantas e bactérias) é de fundamental importância conhecer as necessidades de cada um deles para que o pH da água seja mantido numa faixa que atenda a todos satisfatoriamente. Para garantir que isso ocorra, análises periódicas de água devem ser realizadas e se necessário a correção e estabilização do pH com soluções tamponantes também.

Dentre as opções de substâncias tamponantes que podem ser utilizadas para a correção e estabilização do pH em aquaponia, aquelas à base de potássio (K) e cálcio (Ca) são as mais indicadas uma vez que se trata de nutrientes normalmente presentes em sistemas de aquaponia em quantidades inferiores às exigidas por muitos vegetais. (EMBRAPA, 2015)

  • Tipos de Sistemas

Em geral, os sistemas de aquaponia são constituídos basicamente pelos tanques para criação de peixes, filtros para tratamento da água e pelas bancadas de hidroponia. Em todos os sistemas de aquaponia, os tanques de criação de peixes são interligados a um módulo de filtragem. Normalmente, esse módulo é constituído por um decantador/clarificador para remoção de sólidos, um filtro biológico para reciclagem de nutrientes e um tanque provido com forte aeração para eliminação de gases – a aeração forte agita a água do tanque e contribui para a eliminação dos gases com concomitante oxigenação da água (EMBRAPA, 2017). Na aquaponia, existem três modalidades de cultivo vegetal, que podem ser combinadas em sistemas híbridos, dependendo das espécies de plantas utilizadas no cultivo.

  1. Sistema NFT (nutrient film technique)

Na técnica conhecida como NFT (figura 2) são utilizados canos de PVC ou tubulações específicas para hidroponia, geralmente utilizadas para o cultivo de alfaces e outras hortaliças folhosas (IFCE, 2019).

O ambiente de canaletas é o método mais utilizado mundialmente na produção de vegetais hidropônicos. Nesse sistema, as raízes das plantas são alojadas em canaletas onde permanecem parcialmente embebidas pela água que traz os nutrientes necessários ao desenvolvimento das plantas (EMBRAPA, 2015).

2. Sistema com camas de cultivo

Nos sistemas de cama de cultivo (figura 3) são utilizados recipientes preenchidos com brita ou argila expandida, onde geralmente são cultivadas espécies de maior porte, como tomate cereja, pimenta malagueta, pimentão, entre outras. (IFCE, 2019)

3. Sistema DWC (deep water culture)

Nessa técnica (figura 4) as plantas são alocadas em orifícios feitos em bandejas de isopor que são colocadas na superfície da água, onde geralmente são cultivadas alfaces de diferentes espécies. Esse ambiente é caracterizado por conter grande volume de água, o que lhe confere maior estabilidade aos parâmetros físico-químicos como a temperatura e o pH (EMBRAPA, 2015).

– Vantagens e desvantagens

Sabe-se que a aquaponia, dentro de suas limitações, é uma alternativa viável para a produção de alimentos saudáveis de maneira relativamente sustentável. As principais vantagens da produção em aquaponia segundo Herbert e Herbert (2008) e Braz Filho (2000) são:

– Utilização de uma quantidade mínima de água;
– Possibilidade de produção em ambientes urbanos, perto dos centros de consumo;
– Aproveitamento integral dos insumos de água e ração;
– Possibilidade de trabalhar como um sistema super intensivo, de alta densidade de peixes
e hortaliças;
– Obtenção de produtos de alta qualidade, livre de agrotóxicos e antibióticos;
– Diversificação na produção permitindo renda contínua ao produtor;
– Minimização dos riscos de contaminação química e biológica de aquíferos;
– Minimização dos riscos de introdução de espécies exógenas a aquíferos;
– Licenciamento facilitado para a produção.

As principais desvantagens da produção em aquaponia, segundo os autores citados acima são:
– Dependência contínua em energia elétrica;
– Severas limitações quanto à utilização de agrotóxicos e antibióticos;
– Necessidade de conhecimento em muitas áreas da engenharia; hidráulica, olericultura, veterinária, zootecnia, dentre outras;
– Altos custos de investimento inicial.

  • Conclusão

Apesar da aquaponia ser uma técnica pouco difundida no Brasil, há fortes indícios de que esse quadro possa ser revertido em poucos anos. Embora ainda pequeno, é crescente o número de brasileiros que vêm montando pequenos sistemas de aquaponia residenciais e também produtores em larga escala postando informações e vídeos na internet, sempre mostrando muito entusiasmo com os resultados alcançados. Além disso, nos últimos anos vários pesquisadores de diferentes instituições de pesquisa e universidades vêm realizando seus ensaios experimentais, mostrando interesse crescente sobre o tema.

Vale ressaltar que a aquaponia tem potencial para estimular a agricultura familiar no perímetro urbano, uma vez que pode ser realizada em espaços reduzidos, como cinturões verdes, quintais e varandas de casas populares. Nesse contexto, caso haja estímulos ao desenvolvimento tecnológico dos métodos de aquaponia a preços acessíveis, observadas as normas de controle sanitário vigentes no País, é possível que se ampliem as oportunidades de inclusão produtiva para famílias hipossuficientes, que podem ofertar o excedente de sua produção nos mercados próximos a suas residências, dinamizando a economia em regiões de baixa renda. (SENADO FEDERAL, 2015)

A aquaponia é uma tecnologia promissora e ecoeficiente, capaz de garantir uma alta capacidade produtiva dentro do setor de piscicultura e de hortaliças de forma sustentável, além de fornecer ao mercado consumidor produtos orgânicos e de alta qualidade.

 

Referências

ALBUQUERQUE, Leonardo Freitas Galvão de. Aquaponia: uma tecnologia sustentável para o semi-árido. Morada Nova: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, 2019. 12 p. (TECNOLOGIAS PARA O CAMPO, Nº 01). Disponível em: https://ifce.edu.br/proext/aquaponia-uma-tecnologia-sustentavel-para-o-semiarido.pdf. Acesso em: 10 out. 2020.

CARNEIRO, P. C. F; MORAIS, C. A. R. S; NUNES, M. U. C; MARIA, A. N; FUJIMOTO, R. Y. Produção Integrada de Peixes e Vegetais em Aquaponia. EMBRAPA Tabuleiros Costeiros, Aracaju, 2015.

QUEIROZ, Julio Ferraz de; FREATO, Thiago Archangelo; LUIZ, Alfredo José Barreto; ISHIKAWA, Márcia Mayumi; FRIGHETTO, Rosa Toyoko Shiraishi. Boas práticas de manejo para sistemas de aquaponia. Jaguariúna: Embrapa, 2017. 30 p. Disponível em: file:///C:/Users/mirel/Downloads/aquaponia%20EMBRAPA%20(1).pdf. Acesso em: 20 out. 2020.


Escrito por Mirelysia Meireles Moura,
aluna do 5° semestre do
curso de Agronomia da Universidade
Federal do Ceará, e bolsista do
Programa de Educação Tutorial – PET Agronomia.
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